Livro “Floresta Negra”

Título: Floresta Negra
Autor: John Gallo
Editor: Chappa
Produção: Guida Rolo
Design Gráfico: Luís Belo
Execução Gráfica: Tipografia Beira Alta
Depósito legal: 423804/17
ISBN: 978-989-20-7440-5

Dimensões: 210x210x10mm
Capa: Papel couche 350 gr.
Miolo: Papel couche, 160 gr.

Preço: 25€ – Adquira o seu.

Posfácio

Foram dias duros, cruéis, em que da tristeza profunda fundamentada num silêncio de morte passei à raiva, ao desespero de quem se vê no meio de hectares destruídos pela atitude negligente, incompetente, de um povo que há mais de quarenta anos não consegue dar as mãos para terminar esta tragédia de proporções épicas.
Fundámos um estado e definimos fronteiras muito cedo, demos sentido ao conceito de nação, construindo um lar seguro para todos. Calcorreámos o mundo antes de todos os outros sonharem sequer com a empreitada, construímos caravelas e naus com a essência que agora destruímos, fomos capazes de derrotar gigantes, abrir novos caminhos ao Homem; transformámos o mundo e o futuro da humanidade mapeando um planeta que ninguém sabia onde começava, onde acabava, reconquistámos a nossa independência a um inimigo mais poderoso, reconstruímos Lisboa de forma visionária, travámos uma guerra colonial em diversas frentes, longe de casa, derrotámos uma ditadura que nos asfixiava há quase cinco décadas, demos um exemplo ao mundo de como se transita de um estado totalitário, fechado, despótico, para uma democracia liberal com uma economia de mercado funcional, enfrentámos diversas crises económicas devastadoras, sacrificando-nos até ao último cêntimo com a dignidade que muito poucos têm para pagar a quem nos resgatou e somos incapazes de debelar os incêndios florestais.
Temos uma virtude que poucas nações têm, uma capacidade de união tácita em torno de um objetivo comum que nos vem, talvez, da enorme tolerância que nos caracteriza. Aqui não há jangadas de pedra. Contudo, essa tolerância parece ser em si mesma uma fraqueza que nos impede de agir, concertadamente, na prevenção e combate a incêndios florestais.
Quero que se lembrem daquilo que fica porque todos os anos insistem em lembrar apenas aquilo que arde. A morte a que temos devotado a nossa floresta levará potencialmente à falência da esmagadora maioria da mancha florestal portuguesa, com consequências ambientais, económicas e sociais imprevisíveis.
Floresta Negra não é um exemplo negativo, é um ponto de partida; quando caminhei floresta adentro, durante dias, procurava imagens para um ensaio sobre este tema – do desconforto trazido pelo cheiro fastiento, pela fina cinza que tudo penetrava, pelo silêncio de uma floresta defunta, pelo vómito reflexo, veio a raiva de quem quer lutar mas não sabe como, de quem quer sovar, violentar, quem quer que seja que tenha tido a ideia de assassinar, cremando, todo um ecossistema.
Floresta Negra é um grito – um grito de quem nada sabia acerca desta realidade, de quem assiste, em agosto, sentado no sofá com um copo de água gelada na mão, a mais uma incursão de bombeiros, aflitos, exaustos, numa aldeia em que portugueses desesperam, ficam sem pertences, sem família.
Floresta Negra é um (re)começo; quero que a melancolia destas imagens, um poema pesaroso que chora a morte, aceitando a sua artificialidade como natural, frequente, vos possa desencantar como a mim me desencantou. Quero que se sintam desabrigados, despidos, esventrados, desprezados, impotentes. Quero que sintam a mesma cólera que eu senti, quando percebi que, afinal, também a mim me podem responsabilizar pela inação, pela falta de envolvimento, pela mesquinhez que a minha zona de conforto me trouxe durante anos – não, não estou dentro de uma qualquer redoma de vidro pairando ao sabor da brisa oceânica, esta é a minha realidade, este é o legado que não quero deixar aos meus filhos.
Ainda estamos a tempo de repensar a nossa relação com a floresta, de redefinir a nossa consciência; hoje negra, amanhã verde – a nós, portugueses, falta-nos vencer esta última batalha.
Se nos unirmos em torno deste desígnio seremos capazes de nos surpreender a nós próprios e ao mundo, como tantas vezes fizemos ao longo da nossa história – todos juntos.
Vamos.

 

John Gallo